sobre nostalgia, relevância cultural e princípios.
Sim, esse texto é sobre Harry Potter.
Eu vou começar o texto dando carteirada. Eu li os primeiros livros de Harry Potter quando o primeiro filme não tinha nem saído. Para ser honesto, o primeiro livro foi lido pra mim pela minha mãe, pois era um livro grande e eu não tinha (ainda) o costume de ler. E eu ouso dizer que a franquia foi a minha maior porta de entrada pro mundo dos livros. Eu também assisti todos os filmes nas estréias, enfrentei filas para comprar livros novos, e li o último livro em inglês com um dicionário do lado. Harry Potter também foi a minha porta de entrada para o mundo dos fandoms, e das fanfics. Eu passei mais de uma década escrevendo histórias com os personagens da franquia. O que eu sei de photoshop hoje (pouco) foi o que eu aprendi para fazer edits para postar no tumblr ali no meado dos anos 2010. Eu tinha camisetas, blusas, uniforme de Hogwarts. Eu visitei Orlando, especificamente, para conhecer a parte de Harry Potter no parque da Universal.
As primeiras vezes que a J.K. curtiu posts transfóbicos no twitter ela fingiu que tinha sido um acidente. Ela deu a mesma desculpa do dedão gordo e falta de habilidade com rede social umas duas ou três vezes. Veja bem, as problemáticas contidas em Harry Potter não eram novas para o fandom. Qualquer lugar no tumblr você encontrava gente criticando a forma como ela descrevia certas personagens femininas, a forma como os duendes eram representados. Muito mais gente já criticava a questão da libertação dos elfos domésticos e da Hermione, e o fato do Harry basicamente virar um policial no final dos livros. Enquanto uma parcela do fandom aceitava às desculpas de J.K. já tinha muita gente com o pé atrás com ela. Com a saída do armário de TERF da J.K., o fandom se quebrou. Muita gente abandonou o barco. Eu, incluso.
Veja bem, eu não to falando que foi fácil. Na época de Animais Fantásticos (2016), HP ainda era o meu maior fandom. Eu estava sempre escrevendo e focando em personagens secundários e ships (casais) raros de se ver nos espaços de fandom pois eu sempre achei esses mais interessantes. Para além das falas absurdas e ridículas da J.K., o fandom se tornou algo que ele nunca tinha sido. Pela primeira vez na vida, eu estava recebendo hate por escrever personagens da franquia sendo gays e/ou trans. Com o aval da autora, as pessoas preconceituosas se apoderaram da obra e dos espaços de fandom da franquia. Não que não houvesse hate antes, sempre teve (fandom é esquisito assim mesmo), mas agora estava pior. E mais frequente. Abandonar o fandom de vez se tornou bem fácil, ainda que eu gostasse da franquia e dos seus personagens.
Uma década depois e as desculpas deram lugar a um posicionamento extremamente odioso e preconceituoso. Não é só contra pessoas trans, embora esse seja sempre o alvo maior da autora. Já houveram ataques a comunidade assexual. E muitas das amigas e apoiadoras da autora são abertamente xenofóbicas e anti-imigrantes. Ela já se aliou - diversas vezes - com nazi/fascistas declarados. Nas últimas Olimpíadas ela encabeçou uma campanha de ódio contra uma boxeadora da Argélia por não estar nos padrões dela de feminilidade, acusando a mesma de ser uma mulher trans e estar escondendo esse fato. Campanha que foi apoiada por Elon Musk e outros nomes da extrema direita gringa. Ela está ativamente agindo para tirar o direito de pessoas trans, principalmente de mulheres trans. E ela tem o dinheiro para bancar essa cruzada de ódio.
Não é só o dinheiro no entanto, ela também tem relevância cultural. Ela pode escrever artigos em jornais, ela pode dar entrevistas e regurgitar os preconceitos dela por aí. E ela é levada a sério. Como se as opiniões dela fossem opiniões moderadas de uma mulher progressista que se preocupa com as mulheres (essa é, aliás, a desculpa que ela dá pro posicionamento dela). Isso tudo pois culturalmente ela ainda é relevante. Mas, diferente de outros autores, ela não fez nada de relevante desde Harry Potter. Morte Súbita vendeu bem, a partir de seu nome, mas foi um fracasso entre os leitores (houve até uma série baseada no livro que ninguém se importou muito). A série de livros policiais dela foram um grande flop, e ela precisou anunciar que ela era Robert Galbraith para que os livros ficassem relevantes. Animais Fantásticos sequer foi finalizado (eram pra ser cinco filmes dos quais apenas três foram lançados, e o último foi duramente criticado). E a gente nem vai falar sobre o enredo de A Criança Amaldiçoada. Não é a toa que ela está tentando renovar a relevância cultural dela com a nova série da HBO.
Se você é parte da comunidade lgbtqiap+ ou é um aliado, é importante que você não consuma e não torne relevante o que a J.K. faz. A nostalgia não pode ser mais importante do que o direito de pessoas trans e de outros grupos minoritários. Como eu disse embora o grande boi de piranha do discurso dela sejam pessoas trans tem vários outros grupos minoritários sendo atacados pela ideologia dela. E se ela se mantém culturalmente relevante, ela consegue emplacar o discurso dela como algo normal. E não dá pra gente normalizar o ódio às pessoas queer. Não dá pra normalizar misoginia (sim, o discurso TERF é extremamente misógino também).
Deixa Harry Potter ser algo bom do teu passado, mas deixa no passado. A autora fez questão de sujar o legado dela e da franquia com o seu ódio. Se você consome, você faz parte da máquina que ajuda ela. Não dá pra fingir que você gosta de seus amigos trans, se você não consegue abrir mão de uma franquia que acabou faz quinze anos. Qualquer streaming que você abrir agora vai ter outras dezenas de milhares de séries e filmes novos para você assistir no teu tempo livre, para você se emocionar e conhecer os personagens. Livros - de fantasia, então - não faltam. Dos mais antigos aos mais novos, tem para todos os gostos.
Vale a pena gastar o seu tempo com uma história que você já conhece para deixar mais relevante (e mais rica) uma pessoa que vive de disseminar ódio na internet?
Vale a pena pisar nos seus princípios por uma nostalgia barata?